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Solos Arenosos: a nova fronteira agrícola brasileira

PLANTIO DIRETO

Uma nova fronteira agrícola tem se aberto para a expansão da agricultura brasileira, terras com potencial de intensificação. Terras onde predominam os solos arenosos são responsáveis, hoje, por uma parte significativa da produção de soja, milho, algodão, melão, manga e madeira para celulose, entre outros produtos. Isso acontece especialmente pela adoção de novas tecnologias – fertilizantes, sementes e outros insumos – associadas a ajustes no manejo da correção e adubação do solo, aumento dos teores de matéria orgânica e do controle de pragas, doenças e plantas invasoras. Toda essa evolução tem proporcionado a expectativa de inserção ao sistema produtivo de terras degradadas com solos arenosos, ocupadas, então, principalmente, com pastagens de baixa produtividade e sem aporte de insumos. Nesse sentido, não há necessidade de se avançar em qualquer hectare para as áreas com vegetação nativa.

Diferentemente de uma tradicional fronteira agrícola, na qual a infraestrutura de produção (estradas, armazéns, cidades, oferta de insumos etc.) ainda inexiste, boa parte das áreas onde predominam os solos arenosos estão situadas em regiões agrícolas consolidadas. Além disso, tem chamado a atenção e atraído os agricultores devido à grande oferta, contudo, nem sempre com um olhar diferenciado quando comparado aos solos mais argilosos aos aspectos de manejo. Durante muito tempo, terras com predomínio desses solos eram consideradas de aptidão muito limitada para as lavouras anuais e/ou perenes, e, por consequência, consideradas de pouca relevância para a produção agrícola pela baixa capacidade produtiva ofertada. Quando utilizadas, eram dedicadas à silvicultura ou à produção pecuária, com sistemas de manejo com alto risco de degradação.

Mesmo assim, áreas de solos arenosos, aos poucos, vêm sendo incorporadas ao sistema de produção de culturas anuais e florestais, a partir da adoção do sistema plantio direto (SPD) e, mais recentemente, dos sistemas integrados. Dessa forma, vêm superando alguns desafios e reconhecendo, especialmente, que existem diferentes tipos de solos arenosos e com diferentes potenciais agrícolas, como destacado no artigo publicado em 2016 na revista Pesquisa Agropecuária Brasileira: Caracterização, potencial agrícola e perspectivas de manejo de solos leves no Brasil.

Características além da camada superficial

Solos arenosos e que podem ser extensivos a solos de textura leve, mais amplo, são aqueles que apresentam a areia como fração predominante em sua textura até a profundidade de 75 centímetros ou mais, assim sendo, devem ser avaliados além da “camada arável’’. Pela grande variabilidade observada desse tipo de solo, é possível fazer avaliações diferenciadas a partir da composição textural (teor de areia pode chegar em cerca de 200 gramas/quilo, ou 20%), da espessura das camadas de cada classe de textura e do padrão de incremento de argila em subsuperfície. Esses critérios são cruciais na avaliação do potencial agrícola dos solos arenosos, e, ainda, as recomendações devem ser feitas ao considerar as glebas ou manchas semelhantes, e, assim, em função da sua variabilidade e do relevo, principalmente, definir as zonas de manejo dentro da propriedade. 

Relevância do tema no Brasil

O grande potencial em terras com solos arenosos, com crescentes índices de produção para as atividades agropecuárias e florestais, fortaleceu a ideia de se realizar encontros para tratar do uso e manejo desses solos, o que determinou a realização de três Simpósios Brasileiros de Solos Arenosos (SBSA). Para o último evento, foram elencados, além dos avanços, alguns desafios e/ou oportunidades:

I) a necessidade de aperfeiçoamento dos critérios para identificar e classificar os solos arenosos, visando a uma avaliação mais criteriosa da aptidão agrícola das terras;

II) a formulação de modelos de risco climático aperfeiçoados;

III) os critérios técnicos para subsidiar a concessão de crédito agrícola e seguro rural;

IV) a avaliação da qualidade de sistemas de produção em intensificação agropecuária baseado na qualidade do solo, na produtividade, na valoração de serviços ambientais e no balanço de nutrientes. Eventos como esses são fundamentais para as recomendações de sistemas de manejo para regiões relevantes de ocorrência de solos arenosos no País.

No nível da propriedade, faltam ferramentas para o planejamento de sistemas de produção baseados em zonas de manejo, consideradas capazes de potencializar a produção e intensificar o uso da terra com bases mais sustentáveis. Ou seja, para todos os níveis de gestão e planejamento, há que se agregar critérios técnicos baseados em conhecimentos científicos e as experiências dos agricultores para se avaliar a sustentabilidade da expansão e da intensificação agropecuária sobre os solos arenosos.

Perspectivas para produção e sustentabilidade

Graças ao uso de novas práticas e tecnologias, as áreas com solos arenosos estão sendo incorporadas ao sistema produtivo com sucesso. Como um dos componentes principais, as gramíneas são peça-chave para sustentabilidade do cultivo nesses solos, uma vez que, como as braquiárias, além de forragem, fornecem boa quantidade de palhada para proteger e raízes, promovendo a agregação do solo. Nesse sentido, deve-se identificar as espécies e cultivares mais adaptadas para cada sistema, região e solo. Os preceitos exigidos para o SPD também devem ser observados, como permanente cobertura do solo, não revolvimento, diversidade e volume de raízes, rotação e diversificação de culturas, e controle de tráfego de máquinas. Deve, também, ser observada a necessidade de adotar práticas conservacionistas complementares, como terraceamento, bacias de captação e canais escoadouros, associada ao atendimento do código florestal – manutenção de áreas de proteção permanente e de reservas legais.

Há opções já conhecidas de sistemas e cultivos para as diferentes regiões do País, mas outras também podem ser adaptadas e aperfeiçoadas. No Oeste baiano, por exemplo, geralmente, não é possível fazer o cultivo de culturas como o milho na entressafra (safrinha), então se faz “safrinha de boi”, que utiliza pastagens de entressafra e A GRANJA | 81 suplementação alimentar para engorda de bovinos. No bolsão sul-mato-grossense, com a utilização do Sistema São Mateus, a soja entra para amortizar os custos de recuperação de pastagens degradadas, melhorar a fertilidade do solo e, assim, viabilizar a produção pecuária mais econômica e sustentável. No Rio Grande do Sul, sistemas silvipastoris na região de Alegrete têm recuperado e preservado os solos arenosos.

No Paraná, a irrigação de pastagens em solos arenosos tem proporcionado viabilidade técnica e econômica. A água do solo pode ser monitorada por meio da tensiometria, com a geração de tabelas usando apenas o teor da areia total, para se obter o conteúdo de água disponível (CAD). A tensão da água, obtida por meio de leituras em tensiômetros instalados diretamente no solo que corresponde a 50% do CAD, é o momento recomendado para se iniciar a irrigação. Além disso, na mesma região, a recuperação das pastagens degradadas emprega a redução do preparo do solo, com o plantio das manivas de mandioca sobre a pastagem dessecada, cultivo mínimo ou plantio direto.

Tendo em vista que existem importantes diferenças entre os solos arenosos, a incorporação dos mesmos ao sistema produtivo deve ser precedida de diagnóstico quanto às suas características físicas, especialmente a distribuição do tamanho da fração areia, como a relação areia grossa/ areia fina, a areia fina por si, além de aspectos químicos e da fragilidade aos processos erosivos. Nesse diagnóstico, seja em coleta de amostras com o trado ou na trincheira, deve-se avaliar o solo até uns 80 centímetros, pois, nas camadas mais profundas, podem ser encontrados fatores limitantes, os quais são, muitas vezes, desconsiderados nas recomendações agronômicas.

Na construção do perfil e/ou na construção da fertilidade, avaliar, além da quantidade de nutrientes advindos da calagem e fertilização, outros aspectos, como a necessidade de aumento dos teores de matéria orgânica e da atividade biológica e os fatores preponderantes para a ciclagem de nutrientes, agregação e armazenamento de água.

Fonte: Embrapa